quinta-feira, 18 de março de 2010

Way ahead of you...



Nada que eu sentia poderia fazê-la gostar de mim. Convenhamos, eu sou um cara qualquer. Eu fiz o que eu achava possível. Eu fiz o que vi em diversos filmes adultos. Mas aparentemente ela não se contentava. Ela queria mais. Ela queria uma pessoa que eu não achava possível ser. Ela queria transar com Lúcifer.///

Eu havia provado tudo que fora possível experimentar, todas as formas de sexo no seu mais complexo sentido, nada mais me saciava, queria algo novo, diferente, algo que eu jamais pudesse imaginar.///

Ela me parecia experiente, mais do que eu gostaria de admitir. Meneou a cabeça para o lado em êxtase, como se quisesse provar para mim que eu era ótimo. Ela mentia! Descaradamente. Eu me senti péssimo. Queria dizer-lhe milhões de coisas. Queria dizer-lhe que a amava, que nunca havia sorvido alguém como a sorvera. Que ela era Athenas, que ela era Aphrodite em pessoa. Mas acendi um cigarro, infeliz.///

Eu esperava desmaiar de êxtase, achei que apesar de aparentar certa inexperiência, poderia me surpreender, mas foi tão comum quanto um xaveco barato, fingi sentir o que não sentia para não desapontá-lo, de alguma forma incoerente, havia algo nele que me atraía.///

O beijo! Sim, tinha de ser o beijo. Aqueles lábios envolvendo meu queixo... se não fosse aquilo, nada seria. Ela mentia. Porra, eu queria ser mais homem. Eu estava me sentindo diferente do que eu era. Eu tentei, e falhei. Quando a raiva, o ódio, acometeu meu corpo trêmulo e eu, atirando para o lado o cigarro aceso, agarrei-a pelo pescoço com toda a força que consegui juntar nos dedos, eu percebi...///

Eu chorei, mas não era de raiva ou de desapontamento, naquele momento eu não sabia a razão, fitei seus olhos vermelhos de ódio, nunca havia visto tanta fúria em seu olhar, tentava em vão tirar suas mão de minha garganta, estava quase sem ar...///

Ela lacrimejava seu prazer para fora de seus olhos, me pedindo mais. Eu não era eu mesmo. Reitero. Eu era o que ela desejou que eu fosse. Mas naquele instante onde ela envergou para trás e gritou meu nome eu tornei-me seu veneno. Mordi seu corpo, finquei as unhas em suas costas. Ela respirou. Eu não.///

Senti algo que nunca havia sentido antes, a dor mesclada a um prazer intenso, incessante, por um instante perdi a consciência. Ao recobrar os sentidos, senti um líquido quente escorrendo por minhas mãos - sangue? quem me dera - mas não me importei, eu só queria que ele não parasse, eu gemia e gritava...///

Algo gritava na minha cabeça. Não somente a raivosa voz de Shirley Mason às caixas de som, mas algo que eu tinha medo de encarar? Medo? Eu devia estar brincando. Eu não era eu mesmo, afinal. Eu era mais. Eu era um modelo grego. Caralho, eu era Apollo. Eu era... dela. E nada naquele momento me diria ao contrário.///

Fui lançada rudemente à cama, não conseguia mover um músculo sequer, se aquilo era transar com o diabo eu poderia viver no inferno eternamente. Sussurrei que o amava, mas acho que minha voz não soou clara o suficiente para ser ouvida, o que era aquele ser na minha frente?///

Foi quando ela fechou os olhos e seu calor interno fez-se presente em meu corpo que eu voltei aos sentidos reais. Arfava incontrolável. Deitei ao seu lado e passou pela minha cabeça perguntar-lhe o que tinha dito. Não consegui. Acendi um cigarro e entreguei para ela. Acendi outro. Olhamos para o espelho do teto. Não havia espelho no teto. Você entendeu.///

Não éramos nós mesmos, éramos aquilo que desejávamos ser um para o outro. Eu podia escutar as batidas aceleradas de seu coração, a respiração densa, o cheiro do seu suor na minha pele mesclado ao sangue coagulado, não conseguia sequer tragar o cigarro.///

Ainda sentindo o sabor de sua pele na minha boca amarga, tombei meu rosto ao dela. Ela sorriu, inconsequente. Eu sorri, arrependido. E ela disse a última frase que escutei enquanto era um homem são:///

-Eu ainda o amo... de alguma forma ainda te amo...///

Hoje eu arrisco apenas a dizer que Madame Piaf estava certa: C'est toi por moi, moi pour toi dans la vie, Il me l'a dit, m'a juré pour la vie... je vois la vie en rose.///



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